Lidando com o transtorno de aprendizado

Numa sala de aula cheia, alguns alunos aprendem muito rápido; outros, nem tanto. Ali, no meio de crianças e jovens com ritmos diferentes de aprendizado, há alguns que não aprendem nunca. “É preguiça de estudar”, dizem alguns; “iiih, com aquele nem adianta insistir”, repetem outros. Mas a verdade é que o problema desses meninos pode ser um transtorno de aprendizado, como dislexia ou discalculia, e, sem o tratamento correto, a chance de eles desistirem da escola é grande. Foi para ajudar quem lida com alunos com essas dificuldades que o Instituto ABCD começou, neste mês, a capacitar professores de escolas estaduais de São Paulo a prepararem aulas em que todos os alunos consigam aprender. A capacitação começou com os coordenadores de polos. A partir do ano que vem, o treinamento ganhará um reforço: o instituto está produzindo vídeos curtos em que dá orientações para professores sobre como trabalhar a questão da neurodiversidade na sua prática cotidiana de sala de aula. Esses vídeos serão disponibilizados pelo QMágico, uma plataforma de ensino on-line idealizada por alunos do ITA.
“Cada aluno aprende de um jeito. Tem aluno que aprende melhor lendo; outros, ouvindo; há os que precisam de estímulos táteis ou sinestésicos. O professor tem que ensinar de formas diferentes. Ele não pode só ensinar na lousa; deve usar imagens, experimentações”, diz Mônica Weinstein, diretora do instituto. Assim, ao usar diferentes recursos, não apenas quem tem dificuldade é beneficiado, mas toda a turma, já que os alunos são estimulados cognitivamente de várias formas, afirma a especialista. “No ensino público, ter uma atenção individualizada é difícil. Para ajudar um aluno com dificuldade de aprendizagem, não precisa prejudicar os outros. Todos saem ganhando com essa abordagem diferente.”
De acordo com a diretora do IABCD, quanto antes os alunos com essa condição forem corretamente diagnosticados, melhor. Os estudantes com dislexia, por exemplo, têm muitas dificuldades com a leitura. Se a escola, a família e os profissionais de saúde demoram a perceber isso, ele passará anos sem acompanhar os colegas, com baixa motivação e autoestima. “Ano após ano, a escola repetiu que ele era um fracassado. Isso traz um trauma psicoafetivo enorme e ele acaba desistindo de estudar”.
Mônica cita o caso de um jovem que cumpria medida socioeducativa na Fundação Casa e que tinha abandonado os estudos havia três anos. Ao ser perguntando por que ele decidiu parar de frequentar a escola, ele disse: “Muito antes de eu desistir da escola, a escola tinha desistido de mim”, narrou a especialista. E o rapaz não estava errado. Apesar das estimativas serem de que entre 3% e 5% das pessoas tenham algum tipo de transtorno de aprendizagem, a sociedade ainda não está pronta para tratar do assunto. “A escola passa o problema para a saúde, que não consegue resolver sozinha e devolve para a família. A solução tem que envolver as três áreas.”  (Patrícia Gomes, do Portal Porvir | Estadão)

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